UE - A nova fase na crise
Uma nova onda de más notícias passou com força pelos mercados financeiros nos últimos dias.
Uma nova onda de más notícias passou com força pelos mercados financeiros nos últimos dias, derrubando as cotações nas bolsas e provocando mais uma corrida aos ativos considerados mais seguros, com destaque, como sempre, para os papéis do Tesouro americano. Como sempre, também, a insegurança internacional afetou os mercados de países como o Brasil e a sua classificação de risco, embora os grandes focos de perigo estejam nas economias desenvolvidas. A crise iniciada em 2007, com o estouro da bolha imobiliária americana, continua alimentada pelos problemas do mundo rico.
O alarme, desta vez, soou nas contas públicas de países da União Europeia com enormes déficits fiscais e dívidas preocupantes. O primeiro grande susto foi ocasionado pela péssima situação do orçamento grego. Logo depois ganharam destaque as más notícias de Portugal, Espanha, Irlanda e Itália.
Os problemas desses países não são meramente nacionais. Todos pertencem à zona do euro, nenhum de seus governos pode recorrer a uma desvalorização e todos têm de se ajustar de novo, em algum prazo, às condições prescritas para os 16 membros da união monetária.
Mas o desajuste fiscal não ocorre só nesse grupo de países. Outros países da União Europeia também estão com as contas públicas em mau estado, porque todos, ou quase todos, aplicaram montanhas de dinheiro nas ações de combate à recessão e na ajuda a bancos e a indústrias em dificuldades.
A situação de Grécia, Espanha, Irlanda e Portugal é especialmente complicada porque todos esses países têm déficits fiscais astronômicos, entre 9,3% e 12,7% do PIB. O governo grego terá de produzir um aperto econômico extremamente severo para reconduzir suas contas ao padrão da zona do euro, com limite de 3% do PIB. Mas a dívida pública subiu muito em todos os países da União Europeia. Em três deles ? Grécia, Itália e Bélgica ? a dívida bruta do Tesouro supera 100% do PIB. Em Portugal, Irlanda e França, está acima de 80%. Na Alemanha e na Áustria, pouco abaixo desse nível.
No caso de Portugal, a situação pode ficar mais complicada, porque o Parlamento aprovou na sexta-feira uma lei de financiamento regional com previsão de recursos maiores para a Ilha da Madeira e os Açores.
Apesar das péssimas condições das contas públicas, a maioria dos governos europeus terá de avançar com muito cuidado na eliminação dos incentivos. Houve sinais de recuperação econômica, mas o nível de atividade permanece muito baixo e o setor privado provavelmente ainda não é capaz de se manter com os próprios meios.
Na Alemanha, a produção industrial de dezembro foi 2,6% menor que a de novembro, já descontadas as variações sazonais. Os números foram divulgados na sexta-feira pelo Ministério da Economia. A previsão era de aumento de 0,5%. Na Espanha, o PIB do quarto trimestre de 2009 foi 0,1% menor que o do terceiro e 3,1% inferior ao do mesmo período de 2008. Para todo o ano de 2009 o banco central calcula uma contração de 3,6%.
O quadro não parece muito mais animador na maior parte da Europa. Na quinta-feira, o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra anunciaram a manutenção das taxas básicas de juros. Foi um reconhecimento das condições ainda precárias da economia e das incertezas quanto ao curto prazo.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve, recentemente, também manteve os juros inalterados, para não atrapalhar a recuperação. Os incentivos fiscais estão mantidos e o governo dificilmente deverá reduzi-los nos próximos meses. Na sexta-feira, foi revelado que em dezembro houve um corte de 20 mil vagas no mercado de trabalho, um resultado pior que o previsto. Mesmo assim, a taxa de desemprego americana caiu de 10% para 9,7% ? ainda um dos níveis mais altos nos últimos 20 anos.
Curiosamente, a OCDE apontou sinais de recuperação nas maiores economias do mundo, incluída a brasileira. Sua avaliação foi baseada em números de dezembro, confrontados com as tendências históricas dessas economias. A novidade pode ser animadora, mas não permite apostar num quadro global muito melhor neste ano. O mercado internacional continuará pouco hospitaleiro e o governo brasileiro deverá levar em conta essa perspectiva, se quiser prevenir uma deterioração das contas externas.
Fonte: O Estado de São Paulo (8/2/2010)
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