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OPINIÃO - A revolução silenciosa do empreendedorismo / Ricardo Lacerda*
Muito se comenta sobre o papel da estabilização macroeconômica, das reformas constitucionais, da abertura dos mercados e de mecanismos de distribuição de renda no atual ciclo de desenvolvimento econômico e social do Brasil.

     Eu gostaria de chamar a atenção para um fator talvez menos evidente: o empreendedorismo brasileiro. Independente de sua definição exata, empreendedorismo está associado a desafio, trabalho, criatividade, capacidade de execução, iniciativa, flexibilidade, inovação, pragmatismo, conhecimento, poder de decisão e várias outras qualidades presentes em indivíduos dispostos a tomar riscos para transformar sonhos e ideias em projetos e realizações. A história das sociedades capitalistas mostra que o espírito empreendedor fomenta a competitividade e o progresso econômico. Um estudo da ONU avalia que o desenvolvimento do empreendedorismo depende de dois pilares: a habilidade dos empreendedores e o ambiente para empreender. Eu acrescentaria a interação desses dois fatores e a influência de um sobre o outro.

      Em relação ao primeiro, há um aspecto curioso na experiência brasileira. Nossas adversidades econômicas de tantas décadas criaram empresários e empreendedores capazes de sobreviver num ambiente muito hostil. A inflação descontrolada durante tantos anos colocou no DNA do brasileiro uma capacidade de entender o custo do dinheiro no tempo que, nas sociedades desenvolvidas, só é encontrada em financistas. A dificuldade no acesso a capital, a burocracia para criar empresas, os altos e ineficientes impostos e os custos trabalhistas exorbitantes, entre outros obstáculos, fizeram com que apenas os empreendedores mais eficientes sobrevivessem.

      Podemos ir ainda um pouco mais longe para especular sobre as habilidades do empreendedor brasileiro. No mundo globalizado, nossa origem de "povo indefinido", na linguagem de Gilberto Freyre, talvez nos ajude a ver o mundo por diferentes ângulos, a ter mais tolerância e a evitar características culturais limitadoras, como a rigidez excessiva, o puritanismo intimidador e os conflitos religiosos.

      Nos últimos vinte anos eu tive o privilégio de acompanhar vários empreendedores brasileiros em processos de criação, desenvolvimento, fusão, venda e abertura de capital de suas companhias. Além das qualidades citadas para criar e desenvolver seus negócios, o empreendedor brasileiro tem mostrado um pragmatismo até certo ponto surpreendente para uma sociedade tradicionalmente patrimonialista. Muitos não hesitam em vender ou fusionar suas empresas com competidores diretos quando se deparam com oportunidades contundentes de criação de valor. Outros saíram de seus negócios históricos para em seguida prosperar ainda mais em outras áreas.

      Analisando o segundo pilar do estudo da ONU, podemos identificar na nossa história recente algumas fases do ambiente brasileiro para empreender. As dificuldades econômicas da década de oitenta e o processo de estabilização da década de noventa formaram empreendedores preparados para triunfar no novo milênio. O Brasil tem hoje diversos setores em ebulição. Além dos exemplos mais óbvios das multinacionais brasileiras e dos tradicionais exportadores de commodities, há também empresas menores surgindo com excelência em setores onde o Brasil não tem histórico competitivo, como informática, serviços de consultoria especializada e biotecnologia, só para citar alguns.

      A revolução microeconômica em curso em vários setores da nossa economia tem dado uma contribuição relevante para a atual prosperidade econômica do Brasil. Sem o empreendedorismo e as oportunidades por ele criadas, não estaríamos vendo o extraordinário desenvolvimento dos nossos mercados de capitais e nem o aumento da relevância do Brasil no cenário mundial. A estabilidade macroeconômica é pré-condição para a entrada de investimentos diretos no País. Mas o que de fato determina a magnitude desse fluxo de investimentos e sua manutenção nos altos níveis atuais são as oportunidades criadas na economia.

      Ao longo de muitas décadas acostumamo-nos a louvar recursos naturais como origem de nossas riquezas. Mas hoje, felizmente, começam a aparecer o papel do empreendedor e demais recursos humanos do nosso País como vantagens competitivas. O empreendedorismo brasileiro pode vir a ter a mesma relevância no nosso desenvolvimento econômico que teve o americano em meados do século passado ou o japonês na segunda metade do mesmo século. Mas precisamos expandir este ciclo virtuoso entre as habilidades dos nossos empreendedores e o ambiente para empreender, fazendo deles uma bandeira de prosperidade econômica.

      *Ricardo Lacerda é sócio-fundador do banco de negócios BR Partners. Foi diretor-presidente do Goldman Sachs no Brasil e do banco de investimentos do Citi na América Latina

Fonte: O Estado de São Paulo (8/2/2010)

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