ARTIGO - Angústia na periferia europeia / Luiz Gonzaga Belluzzo*
As agruras dos deserdados da Europa revelam consequências do estatismo de ocasião depois de uma orgia de liberalidades.
ABALROADOS pela crise financeira, os "periféricos" da zona do euro -Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha- vivem a angústia do default. Elos frágeis da União Europeia, os chamados Pigs usufruíram as delícias da euforia financeira dos anos 90 do século passado e do início do milênio. Todos capricharam no consumismo e alguns se esmeraram na formação de bolhas imobiliárias, tudo financiado a crédito barato por bancos domésticos e estrangeiros.
Hoje, enfrentam os temores das instituições financeiras em prover recursos para financiar os desequilíbrios fiscais -deficit e dívida pública alentados-, além de buracos no balanço de pagamentos. Pavlos Tzimas, comentarista político grego, lamentou: "As pessoas passaram a maior parte da década pensando: "Pronto, nós conseguimos, estamos ricos" e de repente lhes dizem que o país está falido".
As agruras dos deserdados da Europa revelam de forma clara as consequências do estatismo de ocasião depois de uma orgia de liberalidades financeiras privadas. Instrumentos de curto prazo de sustentação dos lucros das empresas e de proteção dos portfólios do setor bancário privado, as políticas de geração de deficit e de criação de nova dívida pública incitam, hoje, a emergência de expectativas perversas. Os senhores da finança, salvos do naufrágio, passam a se orientar por suposições acerca da evolução da "crise financeira do Estado". O fato relevante nos próximos meses será a avaliação dos detentores de riqueza, sobretudo dos controladores do crédito, acerca dos rumos da política fiscal, de endividamento público e de redução do deficit externo.
Os Pigs agarram-se, agora, às esperanças de programas drásticos de arrocho fiscal, o que inclui naturalmente uma recessão com redução de salários e do emprego no setor público e na esfera privada. Fossem poucas as desgraças, a adesão à moeda única impede a utilização da desvalorização cambial para auxiliar no ajustamento do balanço de pagamentos.
O povaréu (gregos e troianos) resiste ao arrocho. Diante da reação da populaça, os mercados consideram improvável que os desditosos governos da periferia europeia consigam corrigir a trajetória do deficit fiscal, da dívida pública e do desequilíbrio de balanço de pagamentos. Nesse clima, elevam-se os prêmios de risco e restringem-se os mercados para contratos de prazos mais longos, comprometendo a própria capacidade do Estado de emitir dívida nova e de administrar o estoque de endividamento existente.
A propósito das políticas anticíclicas e de suas consequências, Keynes dizia ao economista James Meade: "Você acentua demais a cura e muito pouco a prevenção. A flutuação de curto prazo no volume de gastos em obras públicas é uma forma grosseira de cura, provavelmente destinada ao insucesso". Para ele, o investimento autônomo do Estado e a regulação rigorosa da finança pelos bancos centrais -com o propósito de impedir (e não de reparar) as flutuações agudas da renda e do emprego- deveriam estar inscritas de forma permanente nas políticas do Estado.
*Luiz Gonzaga Belluzzo , 67, é professor titular de economia da Unicamp. Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda (governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (governo Quércia).
Fonte: Folha de São Paulo (8/2/2010)
COMÉRCIO INTERNACIONAL - Países criam uma barreira por dia / Jamil Chade
EMPRESAS - País já tem quase 40 mil importadores / Márcia De Chiara
NEGÓCIOS INTERNACIONAIS - Fundo de Cingapura negocia compra de 15% do BTG Pactual
RESERVAS - BC aumenta poupança em moedas "exóticas" / Eduardo Cucolo
COMÉRCIO EXTERIOR - Exportação de embalagens cresce 15,6%
OPINIÃO - Fim dos baixos salários na China? / Fan Gang*
COMÉRCIO EXTERIOR - Real valorizado preocupa exportadores e alegra turistas
INTERNACIONALIZAÇÃO - Empresas brasileiras já têm mais de US$ 15 bi em investimentos na África / Paula Pacheco
LOGÍSTICA - 5 mil contêineres bloqueiam portos / Renée Pereira
TI - Brasil mostra avanços com uso de software livre em feira na África do Sul /Andréa Quintiere
TECNOLOGIA - Chile importa empreendedores digitais / Natália Paiva
ENSINO - Apetite dos estrangeiros / Rosana Hessel
VINHOS BRASILEIROS - Elogio insuspeito
OPINIÃO - Capitalismo chinês é selvagem / Colunista Clóvis Rossi
ANÁLISE AGRONEGÓCIO - O açúcar será o "ouro branco" das exportações neste ano / Marcos Fava Neves*
COMÉRCIO EXTERIOR - Importação cresce cinco vezes mais que exportação / Glauber Gonçalves
EMPRESAS - Capitalização pode tornar Petrobrás a 2ª das Américas /Nicola Pamplona e Kelly Lima
PIB - Entre 16 países, Brasil tem o quinto maior crescimento / Sabrina Valle
ECONOMIA - Crise no mundo, preços baixos aqui / Cássia Almeida e Fabiana Ribeiro
PETRÓLEO - Governo quer favorecer produtos argentinos no setor / Verena Fornetti
PEQUENAS EMPRESAS - Bordados tipo exportação / Geovana Pagel
AVIAÇÃO - Gigantes vão à briga com aéreas de baixo custo / Andrei Netto
CRESCIMENTO PIB - Crescimento brasileiro é o segundo maior entre os Brics