IMPORTAÇÃO - BNDES estuda financiar compra de caminhão argentino / Daniel Rittner
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) estuda a possibilidade de financiar a importação de caminhões argentinos.
A principal condição em análise é que haja pelo menos 40% de conteúdo brasileiro (em valores), em autopeças ou outras partes, como motores. "Normalmente, o BNDES não financia importações, mas entendo que isso será entendido como algo passível de apoio, caso haja um patamar razoável de conteúdo nacional", disse Armando Mariante, vice-presidente do banco, que fez parte da delegação brasileira que manteve reuniões ontem com autoridades argentinas.
Em outubro, a presidente Cristina Kirchner afirmou que pediria ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a extensão dos financiamentos aos caminhões montados na Argentina. A Iveco, que também fabrica no país vizinho e registrou queda de 50% na produção no ano passado, apoia a demanda. O financiamento de veículos pesados pelo Finame diminui a taxa cobrada para menos de 7% ao ano.
Sem novidades quanto à exigência mútua de licenças não automáticas, Brasil e Argentina fizeram um monitoramento do comércio entre os dois países nos últimos meses. O secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, reconheceu que o governo argentino agilizou a análise dos pedidos de licenças e está liberando as exportações brasileiras em menos de 60 dias, prazo máximo definido pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
No entanto, Ramalho alfinetou seus colegas argentinos em várias ocasiões, numa entrevista conjunta, e aproveitou para deixar clara a insatisfação do Brasil com a manutenção do sistema de licenciamento. "Temos preocupação com o desvio de comércio, principalmente quando há a intervenção de licenças não automáticas", afirmou. Ele ressaltou que o governo brasileiro "tem todo o interesse" em reduzir o número de produtos submetidos a licenças, mas cobrou "reciprocidade" do país vizinho.
O secretário de Indústria e Comércio Exterior da Argentina, Eduardo Bianchi, falou vagamente em avaliar "quais setores são factíveis de revisar as licenças e quais setores não precisam mais", mas evitou fazer qualquer promessa concreta. "Não vai haver nenhum anúncio imediato", disse. Depois, comentou: "Não queremos perder empregos".
De acordo com o secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, as restrições argentinas afetam cerca de 400 produtos brasileiros. Na direção contrária, são aproximadamente 30 produtos, segundo ele. Barral destacou "melhorias substanciais dos dois lados" e anunciou uma ofensiva conjunta dos dois países para fazer missões comerciais e promover investimentos em terceiros mercados.
O secretário, no entanto, também cutucou o governo argentino. Enquanto Bianchi ressaltava a permissão da OMC para aplicar licenças não automáticas, Barral disse que elas "têm efeitos para o comércio bilateral e, na avaliação do Brasil, esses efeitos são deletérios". O funcionário brasileiro insistiu na tese de que, diante da retomada do crescimento da economia, as barreiras protecionistas no Mercosul trazem "imprevisibilidade" e podem atrapalhar investimentos.
Fonte: Valor Econômico (5/2/2010)
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