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ECONOMIA - Crise deixa Fórum de Davos menos liberal / Sergio Leo
40 anos: Fórum Econômico reúne executivos e líderes políticos e destaca os riscos à recuperação global.

     Aos 40 anos, entre análises que destacam sua crise de meia idade e diagnósticos que apontam sua morte, ou, no mínimo, irrelevância, o Fórum Econômico Mundial começa hoje a atrair para a gelada cidade suíça de Davos um número signficativo de líderes empresariais, governantes, ativistas e, pela segunda vez, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado da comitiva de maior peso já levada pelo governo brasileiro ao encontro. O Fórum se reúne num esforço para apontar saídas ao que seus especialistas consideram um agravamento preocupante nos riscos para a estabilidade global.

      Segundo o estudo "Riscos Globais 2010", a edição mais recente do relatório anual realizado há cinco anos por especialistas convidados pelo Fórum, seis dos dez maiores riscos para a economia global tendem a aumentar nos próximos dez anos. Sete, dos dez maiores riscos ambientais, também devem se agravar. Como problemas prioritários, os mais graves, o Fórum lista a maior probabilidade de crises fiscais, especialmente nos países desenvolvidos, a queda no investimento em infraestrutura, que comprometerá as perspectivas de crescimento, e a disseminação de doenças globais, como a gripe suína e a asiática.

      Embora o Fórum ainda seja a mais impressionante reunião de executivos e líderes políticos do mundo, não é à toa que os meios de comunicação falem em "crise de meia idade" e a revista "Time" tenha descrito o encontro como "a morte do Homem de Davos" (em referência à figura do Davos Man, criada pelo historiador Samuel Huntington para descrever o participante típico do Fórum: homens, brancos e fortemente ligados à ideia de globalização e livre mercado). A verdade é que o Homem de Davos não é mais aquele.

      Fisicamente, americanos e europeus ainda são maioria, embora a cada ano percam espaço para uma crescente afluência de asiáticos e participantes de outros países emergentes. Mas o liberalismo dos primeiros anos deu lugar à preocupação com a necessidade de fortalecer a "governança global" para lidar com os riscos sistêmicos, aqueles que não se limitam geograficamente ou setorialmente, mas têm efeito generalizado sobre os países. Esta edição do Fórum deve ser a consagração de um projeto defendido pelo governo brasileiro: o G-20, grupo das principais economias do planeta, consolidado em 2009 com os esforços para contornar a crise financeira global.

      "Desde a conferência de Bretton Woods, em 1944, é a primeira vez que líderes em todo o mundo concordam com a necessidade urgente de reformar o sistema financeiro global", diz o relatório, ao defender uma resposta "sistêmica e global" à crise, além das intervenções no mercado financeiro. O G-20 é elogiado pelos especialistas que veem nele um modelo de cooperação necessária entre países desenvolvidos e em desenvolvimento para enfrentar a crise.

      De todos os riscos de crise mundial, os riscos econômicos são os de maior potencial de danos para o planeta (de no mínimo US$ 250 bilhões a mais de US$ 1 trilhão), segundo o Fórum. Há cinco anos, o relatório de riscos globais revela o temor de uma queda abrupta (ainda maior neste ano) dos preços de ativos, como commodities. Teme, ainda crises fiscais, como a que ameaça a Grécia, com reflexos em toda a Europa (um dos assuntos mais falados neste ano). E continua, apesar da agilidade mostrada pelo governo chinês, o risco de uma séria desaceleração na economia chinesa (menos de 6% de crescimento ao ano), que emitira ondas de abalo em todo o globo.

      Curiosamente, o G-20 também é visado pelos grandes banqueiros internacionais, que esperam obter em Davos apoio de empresários e governantes do bloco contra o pacote do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, recém-lançado para reprimir os excessivos lucros e riscos do sistema bancário americano. Os bancos querem reforçar em Davos a ideia de que o pacote de Obama foi uma ameaça unilateral ao esforço de saída coordenada da crise, e uma arma ineficaz contra os riscos que pretende atacar.

      Entre os líderes presentes, estarão o presidente francês, Nicolas Sarkozy, que viaja a Davos apenas para o discurso de abertura, os presidentes da África do Sul, Jacob Zuma, do México, Felipe Calderón, e da Colômbia, Álvaro Uribe. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu ir também, ao ser convidado para ser o primeiro a receber o prêmio "Estadista Global".

Fonte: Valor Econômico (26/1/2010)

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