CALÇADOS - China quer passar de bicho-papão a cliente preferencial dos calçadistas brasileiros
Segundo o consultor de inteligência comercial da Abicalçados, Ênio Klein, diversos comerciantes chineses foram seduzidos pelo produto brasileiro devido à qualidade e ao design.
A China confirmou sua disposição por se tornar um promissor mercado importador de sapatos bem acabados, o que pode abrir ao Brasil uma oportunidade favorável de negócios, avaliaram representantes do setor calçadista brasileiro que estiveram esta semana no gigante asiático.
"Ao abrir espaço (em seu mercado interno) para os sapatos (estrangeiros), a China quer quebrar a situação incômoda de ser hegemônica (no mundo) e de ser destruidora de fábricas de calçados e de empregos em vários países", apontou o Consultor de Inteligência Comercial da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Ênio Klein.
O especialista, que falou à Xinhua, sublinhou que diversos comerciantes locais foram seduzidos pelo produto brasileiro devido à qualidade e ao design, pontos que permitiram a fabricantes de calçados de luxo encontrar no país oriental um nicho entre clientes com maior poder aquisitivo.
Na opinião de Klein, parte do interesse chinês com o produto do Brasil pôde ser confirmado com a oferta gratuita dos quatro estandes ocupados por expositores nacionais na Feira Internacional de Sapatos da China, realizada em Pequim entre segunda e quarta-feira.
Perspectivas de negócio
Outra prova é o contrato assinado em agosto que permitirá à empresa chinesa Prime Success vender sapatos da marca mineira Arezzo em lojas com este mesmo nome, que deverão chegar a trezentas na China até 2016, com uma expectativa de faturamento anual em torno dos US$ 150 milhões.
E a franquia da terra das Alterosas não é a única a atravessar a Grande Muralha, que desde 2006 é visitada por muitas donas de pés que também são calçados por alguns dos 1.500 pares de sapatos fabricados anualmente pela gaúcha Werner para a cadeia chinesa de butiques Extravaganza.
"Queremos conhecer melhor este mercado, onde temos a oportunidade de colocar um produto com valor agregado", disse à Xinhua o representante da Werner, Leonardo Sauter, cuja empresa projeta dobrar em um ano o fornecimento para a China.
Segundo ele, os números de sua companhia -que fabrica diariamente 2.500 pares de sapatos e exporta também para vários países da Europa e do Oriente Médio- ainda são modestos no mercado chinês, que consome por ano 4 bilhões de sapatos, de acordo com dados da Abicalçados.
Para Sauter, a Ásia como um todo é um mercado muito grande e novo que tem muito a oferecer aos calçadistas brasileiros, avaliação à que disse haver chegado em função dos contatos que teve com comerciantes da região durante a feira Fashion Access, de Hong Kong.
Desconhecimento
O executivo gaúcho sublinhou que o Brasil não conta com muitas informações corretas sobre a China, vice-versa, no que se refere à produção de sapatos, e citou que, ao contrário do que se pensa, os chineses começaram a produzir calçados de luxo e com boa qualidade.
"Mas é um mercado tão grande (o chinês), onde muitos consumidores se interessam pelo design brasileiro, que não há necessariamente porque ter medo da concorrência", considerou.
As estatísticas e as tendências mercadológicas podem dar a razão a Sauter em parte, já que em 2006 os chineses importaram 13,8 milhões de pares de sapatos e somente entre janeiro e agosto deste ano foram 14,6 milhões, entre os quais pouco mais de meio milhão eram brasileiros (3,47% do total).
Importação incipiente
Por outro lado, contudo, há quem pondere que a incipiente prática da importação de calçados pelos chineses, acostumados até há pouco tempo a só exportar esse produto, possa fazer com que o Brasil ainda tenha "um caminho muito longo para percorrer", como disse à Xinhua a empresária Elysa Luo.
Chinesa da província costeira de Zhejiang (leste) e radicada em Novo Hamburgo (Rio Grande do Sul) há um ano, a proprietária da marca de sapatos femininos Lyly acredita que as empresas brasileiras devem antes resolver uma série de questões técnicas e financeiras para conquistar uma parcela significativa dos possíveis distribuidores chineses.
Ela lembrou que os fabricantes têm que redesenhar suas linhas de produção para atender os diminutos pés chineses, bem como estabelecer estratégias de importação que garantam margens de lucro interessantes aos representantes na China.
Em relação a esse segundo quesito, assim como Sauter, disse haver visitado fábricas chinesas com produtos de alta qualidade a preços bastante competitivos, livres dos custos adicionais de importação, o que poderia ser um novo obstáculo à venda do sapato do Brasil no seu país natal.
"A Stella, que é a segunda maior fabricante mundial de sapatos femininos de luxo, está lançando este ano 80 lojas na China continental, outras 128 no ano que vem e deverá ter 328 até 2009, com sapatos muito bem feitos", informou a chinesa que teve recentemente uma reunião com essa companhia.
Mas sem querer ser a pessimista do grupo integrado por 15 representantes de empresas e entidades calçadistas, Luo salientou que os produtos brasileiros têm propostas estéticas singulares, o que agrada aos chineses dispostos a pagar caro por produtos exclusivos.
Além disso, analisou que como a atividade de importação de sapatos ainda é nova entre seus conterrâneos, o Brasil poderia desenvolver formas de negócios interessantes para os dois lados, o que garantiria a conquista de um bom pedaço desse novo filão que surge no comércio internacional.
Fonte: Agência Xinhua/Pequim (10/10/2007)
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