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  Segunda, 6 de setembro de 2010
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Fernando Ribeiro: O Brasil soube aproveitar bem a mudança do perfil do comércio mundial, conseguindo expandir bastante suas vendas para os novos mercados em rápido crescimento.

Global 21 - A Balança Comercial Brasileira de 2009 em relação a 2008 teve um saldo positivo de US$ 24,615 bilhões, resultado de US$152,252 bilhões de exportações vis a vis US$ 127,637 bilhões de importações, o pior resultado registrado desde 2002. O desafio de aumentar esse saldo pode ter chances a curto prazo?
Fernando Ribeiro
- Não. A tendência daqui para a frente é de redução do saldo. A Funcex estima que em 2010 o superávit recue para US$ 8 bilhões.

G21 - A esperada perda da liderança da Alemanha para a China como maior exportador acabou ocorrendo. Paralelamente um novo mapeamento das exportações e importações mundiais se configurou. De que forma este reposicionamento na mudança do perfil do comércio mundial podem afetar comércio exterior brasileiro?
Ribeiro
- Este reposicionamento já era previsível, tendo em vista o forte crescimento da China, e acabou sendo antecipado pela crise mundial. A mudança pode ser muito boa para o Brasil, até porque a China é um grande importador de commodities que o Brasil produz. De fato, o Brasil soube aproveitar bem a mudança do perfil do comércio mundial, conseguindo expandir bastante suas vendas para os novos mercados em rápido crescimento. Entretanto, isso também vem contribuindo para o aumento do peso das commodities em nossa pauta.

G21 - Como o senhor analisa a perda de posição brasileira no mercado dos EUA que, por várias décadas, atuou como o principal comprador do Brasil além de ser o maior comprador mundial?
Ribeiro
- Essa perda é reflexo do aumento da concorrência de terceiros países, aprofundada, com certeza, pela valorização do real e por problemas específicos em determinados produtos. Nossa pauta para o EUA é concentrada em manufaturados como máquinas e equipamentos, calçados, produtos siderúrgicos etc, que são produtos nos quais a China vem ganhando espaço não só nos EUA mas em todo o mundo. Há que se notar também que as vendas brasileiras para os EUA em 2009 foram bastante prejudicadas pela forte retração de alguns produtos que nada tem a ver com a concorrência chinesa, como petróleo (queda das cotações), aviões (retração do mercado mundial do setor), álcool e óleos combustíveis.

G21 - A balança comercial do Brasil de bens provenientes tipicamente da indústria de transformação ficou, a exemplo de 2008, negativa, fato que não ocorria desde 2005. A que fatores o senhor atribui esta queda? Déficit de competitividade? Quais as implicações que esta situação pode trazer para o comércio exterior?
Ribeiro
- Isso se deve à combinação de quatro fatores: valorização do câmbio, problemas de competitividade, insuficiência de investimentos na indústria e o fato de que a maior retração na demanda mundial ocorreu justamente nos setores industriais mais avançados. Deve-se notar que em um país que possui claras vantagens comparativas em commodities, é natural que haja déficit no setor industrial. O que não se pode é deixar que esse déficit cresça demais, ou que as exportações de produtos industriais caiam demais. Mas tendo em vista as perspectiVas de crescimento doméstico e a escassez de investimentos no setor industrial, a tendência é que o Brasil seja cada vez mais um grande importador de bens industriais.

G21 - As exportações oriundas do agronegócio também sofreram uma queda, mais exatamente 9,8% em 2009 em relação a 2008, quebrando uma trajetória que vinha se mantendo ascendente. Quais os fatores que influenciaram uma indústria que vinha ganhando espaços mundiais a perder posições?
Ribeiro
- A perda veio principalmente da queda dos preços, que em 2008 atingiram níveis muito elevados (lembre-se que na época havia uma preocupação com a inflação mundial dos alimentos). Mas o setor continua forte e competitivo, e suas exportações voltarão a crescer bem em 2010.

G21 - A questão da apreciação do real continua sendo a grande vilã da queda das exportações brasileiras ou devem ser considerados outros fatores que contribuíram para a sensível redução do superávit da Balança Comercial Brasileira?
Ribeiro
- Creio que o maior problema seja a questão da poupança e do investimento. Sem maiores investimentos na produção, que gerem maior capacidade produtiva e mais excedentes exportáveis, e sem poupança doméstica que possa finaciar esses investimentos, a tendência é que o Brasil sofra uma deterioração de sua balança comercial sempre que houver um ciclo mais longo de crescimento doméstico, pois as importações crescerão e as exportações ficarão limitadas pela capacidade produtiva. Nesse quadro, o câmbio é certamente uma variável importante, mas não pode ser visto como o grande vilão.

Publicado em: 8/2/2010

 




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